quarta-feira, 7 de abril de 2010

Vai tomá no SUS!


Devido ao meu já divulgado medo de chegar resfriada ao hospital e ter a perna direita amputada por um médico boliviano numa maca de corredor, evito freqïuentar emergências.
Quando o Theo nasceu tive que superar o medo, já que ou tinha uma parto Juma do Pantanal domiciliar, ou ia pra maternidade. Claro que ameacei o Big de morte caso ele se afastasse de mim durante o trabalho de parto.
Vocês bem sabem que tudo correu bem nas breves 14 horas de trabalho de parto, o Theo nasceu forte e saudável, fez amizades no berçário da maternidade e eu saí de lá andando com as duas pernas! Como pessoa que ainda crê na humanidade, tive que dar o braço (e as pernas) a torcer: Emergência de hospital não era uma coisa assim tãaaao ruim.

Não pestanejei então quando a pediatra do Theo indicou uma médica da Sta Casa de São Paulo pra dar uma olhada nos rins dele. Marcada a consulta fomos eu e minha cria lá pra Sta Cecília, no final da rua da consolação. O Theo todo brejeiro com calça cargo branca e body azul e caramelo, eu de salto alto.
Chegamos no lugar, e, mais uma pra série perdida em São Paulo, eu não sabia onde a médica ia atender a gente.

Nessas horas eu paro por uns momentos de acreditar que a humanidade deu certo! Estava eu com um bebê de nove quilos em uma mão, uma bolsa de uns 10 na outra e ninguém, nenhuma vivalma pra me oferecer ajuda! Beleza, sou mulher pra caralho, o suficiente pra ficar perdida de salto alto, no paralelepípedo com o Theo no colo.

O lugar era enorme, tinha muitos prédios, muitos carros e seguranças que não sabiam dar informação. Chaguei numa capela com o dedão já formando bolha na abertura do peep toe, e achei um transeunte que me apontou vagamente a direção do prédio de especialidades pediátricas. O Theo enquanto isso achava tudo muito legal.

Entramos no prédio, antigo, muito antigo, com escadas demais pra ser um hospital pediátrico e eu vi que meu pesadelo com o médico boliviano era fichinha... A sala de espera era um salão gélido, com bancos de plástico daqueles rodoviária anos 80, que eram insuficientes pra tantas mães com seus bebês e crianças. Uma televisão de 19 polegadas dentro de um quadrado de grades dava o toque final da decoração branco-suja do salão. Cheguei na recepção e falei que tinha hora marcada com a Dra. Fulana. A recepcionista era até esverdeada de tão funcionária pública. E qual não foi minha surpresa quando a mulher verde abriu a porta e mandou que eu entrasse no hospital e procurasse a médica! Quando eu perguntei onde devia procurar ela respondeu: Se vira. SE VIRA! vaca! mal comida! verde! como assim???

Bom, a consulta estava marcada, eu já estava lá e ela já tinha aberto a porta do corredor pra mim. Passei por uma rodinha de medicas e enfermeiras que olhavam animadas um catálogo da AVON enquanto na espera bebês berravam. Perguntei pela doutora fulana mas, e foi aí que eu percebi, assim que passei por aquela porta sem um jaleco branco eu ficara invisível, inaudível, eu era inexistente.
 Continuei até virar a esquerda e dar de cara com uma outra médica, sorridente e aparentemente mais solícita a me dar informações. Engano meu, Ela falava ao celular com alguém que aparentemente estava fora do país enquanto uma mãe que me parecia muito sozinha e preocupada segurava um bebê de mãozinha enfaixada.
Nesse ponto eu tive certeza de que a raça humana foi resultado de um sério acidente laboratorial!
Eu já ia continuar o meu tour de cortar o coração quando fui abordada por uma médica (ou residente, ou estagiária???) extremamente jovem que após analisar as vestimentas do Theo, que ainda achava tudo muito legal,  me disse com propriedade: "Eu acho que vocês estão no lugar errado".

Você acha gata? Eu tenho certeza! Nós estamos no lugar errado! No país errado! No mundo errado! Quando foi que ter o coração arrancado cirurgicamente virou pré-requisito pra ser pediatra do SUS? e porque você tinha tanta certeza que nosso lugar não era lá? Porque eu era uma mãe branca, com um bebê branco que aparentava morar em uma casa com saneamento básico?  Não que aquilo tudo fosse novidade pra mim, que esse país é injusto, desigual e sacana todo mundo está careca de saber, mas é tão cruel quando você está com o seu filho no colo e tudo te dá as costas. Me coloquei no lugar de cada mãe naquele prédio, sentada naquela sala suja olhando praquela vagabunda da recepção, ou num consultório de alguma recém-formada que vai tratar seu filho como se fosse um animalzinho sem dono... Em outros tempos me daria vontade de gritar, ligar pra imprensa, tirar satisfação com o diretor do hospital... mas naquele dia eu só senti foi uma tristeza muito grande e, por incrível que pareça, uma culpa muito grande quando aquela mesma gênia que chegou à conclusào de que eu estava no lugar errado me levou até a clínica onde eram atendidos os pacientes que pagavam a consulta.

Tinha elevador, água, cafézinho, TV de plasma e as recepcionistas eram uniformizadas e bem alimentadas. O Theo foi atendido na hora certa, e na saída o segurança já esperava a gente com o táxi de portas abertas.
Ah, detalhe, fui informada no caminho de que não se marca consulta na Unidades do SUS de especialidades pediátricas da santa Casa de São Paulo. Lá pra ser atendida você e seu bebê precisam exercitar desde cedo seu direito sagrado no Brasil de ser feito de otário, ou seja, chegar cedo, muito cedo, acampar na fila no sereno com um bebê de colo para, quem sabe, conseguir depois de 6 horas encontrar a médica no labirinto que é o corredor da pediatria. Antes, é claro, que comecem as consultas particulares agendadas pelo especialista.

Já dizia o saudoso Renato Russo: A humanidade é desumana!

13 comentários:

GaB. disse...

Não consigo nem imaginar tudo que tu descreveu. É muito de cortar o coração :/
O pior é que a gente nem pode fazer nada. :~
Beeijo.

Paola disse...

....
Paola

Diane Lorde disse...

Isto foi uma saga, que terror!
Só esqueceu de dizer se Theo esta bem, por favor!

Monica Loureiro disse...

Menina, voce escreve super bem !
Adorei o post ! Claro , fiquei apreensiva por causa do que passou , e com muita raiva também, mas sua carreira de escritora já está garantida, caso voce ainda não saiba..

Adorei ter vindo aqui !

Larissa disse...

Sentindo frustração, raiva e uma vontade loka de xingar alguém bem alto eu digo:
-"Parem o mundo, eu quero descer."

Ps: Eu espero que o Theo esteja bem.

Beijos
Lari

Mari disse...

Hórror, não? Sei de cada história sobre atendimento público que não tenho mais coragem de falar um ai sobre qualquer perrenguezinho que eu passe por causa de médicos...

Se tem Pedro na minha família? Que tal meu pai, meu irmão, meu tio, meu outro tio, meu avô e meu outro avô? Entre nomes simples, compostos ou traduzidos (meu avô é sírio e se chama "Pedro" em árabe, "Boutros"...), todos esse são Pedros. De lascar, né?
Falta nome de homem no mundo, só pode..
Beijo!

[ Dk ] Mateus disse...

Isso me faz entender por que minha mãe quis me acompanhar na fila do SUS (não tive o privilégio de ter uma calça cargo e body azul, mas mamãe estava no salto, lóoogico), quando caí em febre do dia pra noite, aos 24 anos, e suspeitaram de H1N1.

Pois ela esteve do meu lado na salinha gélida branco sujo, onde outros suspeitos de ter a gripe também aguardavam, e ficou sem máscara!!! Toda preocupada comigo...

O médico se recusou a atender os pacientes da gripe, e ela CAUSOU no hospital. Por fim, diretor veio pedir desculpas, e todos os 6 pacientes foram atendidos exemplarmente.

Foi um SUSto. E eu não tinha H1N1, graças a Deus.

Anônimo disse...

Caraca vc arrasa na escrita. Qdo eu crescer quero ser como vc.
Poxa adorei o post. Arrasou.
Viu o SUS tb não é essa merda toda que falam.
Depois ver meu blog..iniciante. Nao repare. Abraços.
http://2010palavrasaovento.blogspot.com/

Sâmia disse...

Sei que o assunto é sério, mas preciso dizer que a "recepcionista era até esverdeada de tão funcionária pública" é a melhor parte do texto. Nunca ninguém sintetizou tão bem assim um funça.
E, claro, a melhor parte da história é que o Theo não saiu traumatizado do lugar e, pelo que deu pra pescar, ficou até o final achando tudo muito divertido.
Beijos!

piscardeolhos disse...

E é uma vergonha mesmo, esse país! Que papelão, hein, seu SUS?
Criança é criança, pô, ninguém merece essas funcionárias verdolentas mal-assistidas!
Humpf.
Duas perguntas:
1. Vou te lincar, pode?
2. Por que, ó céus, POR QUE que o raio da nossa bolsa SEMPRE tem um kilo a mais que a criança, me diz? Onde é que a gente vai parar assim?

carla m. disse...

Gente, quase chorei aqui!

É por essas e outras que a gente tem que tomar chá de camomila todo dia pra acalmar e bater palma pra quem é miserável nesse país.

É uma façanha sobreviver!

Sol! disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Sol! disse...

Ai gata!

O problema da bolsa é seríssimo! Mas mãe que é mãe sempre acha que apesar de estarmos num verão senegales, vai chegar uma frente fria da argentina e nosso rebento não pode estar desprevenido. Por isso eu sempre levo roupas de frio e roupas de neve, fraldas eu levo o dobro do que ele usa em casa, porque o Theo gosta mesmo é de cagar em locais públicos, fralda de boca porque ele ama babar naquela camisa linda e vomitar na minha blusa, por isso além de todos os apetrechos dele eu levo também outra blusa pra mim!

UFA