
Quando eu tinha sete anos eu apanhava da Talita. Na verdade todo mundo apanhou da Talita aos 7 anos, era como se fosse um rito de passagem!
Talita era uma menina muito má, cerca de 8 cm mais alta do que eu, que falava com um sotaque itapipoquense digno de roça e que tinha o cabelo bom. Eu era uma paulistaninha criada em apartamento, que nunca tinha estudado em uma escola pública, usava aparelho móvel e óculos de aro cor de rosa e tinha o intelecto muito mais desenvolvido aos 7 anos do que a Talita e todos os seus 6 irmãos, juntos dentro do fusca-abacate da mãe da Talita.
Eu ia apanhar da Talita, isso era fato. Eu sabia disso, Talita sabia disso, toda a primeira série A do Grupo Escolar Júlio de Mesquita sabia disso. Era uma questão de tempo e oportunidade.
Ela me provocou durante meses, esperando que eu tomasse alguma atitude pra justificar a briga. Roubou meu casaco da Barbie, a minha caixa de giz pastel e fez todo mundo acreditar que eu quebrei o estojo da Juliana Martins, que no fim das contas também queria me bater. Ela tinha uma mente maquiavélica a Talita, e demorou meses pra executar o plano perfeito.
Eu ia embora de perua escolar, que fatalmente atrasava, por isso eu sempre acabava sozinha na porta do grupo batendo papo com o Tião-pipoqueiro, que me liberava uns piruás em troca das histórias de fantasma que eu inventava sobre o prédio da escola.
Já a Talita ia sempre embora de fusca-abacate, junto com seus 6 irmãos e, naquele dia, junto com a Juliana Martins.
Foi uma luta injusta meus caros. Foram necessários dois irmãos pra me segurar, e só mais dois pra imobilizar o Tião-pipoqueiro. A Juliana Martins só puxou meu cabelo, mas a Talita não... Ah minha gente, vocês não sabem do que é capaz uma menina de 7 anos que cresceu no meio de 6 irmãos. Ela sabia brigar, mas brigar naipe UFC.
Ao final dos 4 minutos mais longos da minha vida eu tinha levado um prejuízo de:
- Uma lancheira da moranguinho;
- Caderno do piaca-pau + estojo de três partes de tecido (daqueles que você coloca o lápis de cor de um lado, lapis-borracha-apontador no meio, e o terceiro compartimento é pra guardar as cacas de lápis apontado);
- A perna do meu óculos rosa;
- Toda a minha dignidade diante do Tião-pipoqueiro que me achava a menina mais sabida do mundo;
- A coragem de aparecer na escola de novo.
Quando a perua chegou eu vi a satisfação no rosto de Talita. Chorei até chegar em casa escondendo os ralados do joelho, e sabendo de ante-mão que só uma pessoa nesse mundo poderia me ajudar a resolver esse problema....
- “Mãaaaaaaaaaaaae, a Talita me bateu!”
E então eu vi a transformação. Aquela que sempre foi um poço de calma e parcimônia diante dos meus olhos se tornava uma versão avermelhada do Hulk. Ela pegou a sua malinha de primeiros socorros e enquanto limpava os machucados me disse muito séria: “Você vai esperar essa Talita ficar sozinha e vai sentar a mão na cara dela”.
Juro, eu esperava ouvir tudo, menos isso!
No dia seguinte a Talita foi ao banheiro na aula de Estudos Sociais e eu fui atrás. Não lembro muito bem como tudo aconteceu, flashes de tufos do cabelo-bom da Talita entre os meus dedos... A Cida, inspetora de alunos, me dando mais uns 30 segundos pra descer o braço na menina mais mal-educada que já tinha passado por aquela escola... Sangue... E o olhar de horror de Talita após os 30 segunos da Cida quando o hound acabou.
Subi pra sala da Diretora triunfante, ela já tinha ligado pra minha mãe. Só quando sentei naquele banquinho gelado senti que minha vida podia estar acabada. Eu tinha entrado para o mundo do crime... Aos nove anos estaria contrabandeando Babalus pra classe, aos 12 entraria pra gangue da 6ª série que roubava dinheiro do lanche, aos 14 ia namorar um fugitivo da Febem, ia engravidar aos 15 e virar dona de buteco na Zona rural sem nenhum dente na boca!!!! Lágrimas se esvaíam dos meus olhos, o terror era inevitável e eu já me conformava com a minha vida cirminosa quando ela chegou, vestida de branco, a primeira coisa que fez foi me dar um abraço e a segunda foi dizer pra diretora antes que ela pudesse respirar:
“Fui eu quem mandou minha filha descer a mão nessa menina. E isso eu podia ter dito pra senhora por telefone, mas essa criança é tão mal-educada e tem um futuro tão triste que a mãe dela também merece apanhar. Por isso eu vim aqui pra esperar a mãe dela chegar e sentar a mão na cara dela também!”
E assim se formou a maior crise diplomática do Grupo Escolar Júlio de Mesquita. A diretora já tinha chamado a mãe da Talita, e naquela época minha gente não tinha celular, portanto a merda estava feita. Ficamos eu e minha mãe sentadas no banquinho gélido e eu, ao invés de delinqüente juvenil, me sentia como o Mell Gibson no Filme Coração Valente, com a cara pintada de guache azul só esperando o momento de mostrar a bunda pra mãe da Talita...
Mas não foi bem isso o que aconteceu... A mãe da Talita era cozinheira em uma doceria, e o pai da Talita, bom, agente não sabia quem era o pai da Talita... Ela ficou tão envergonhada por tudo que tinha acontecido e desabafou os muitos problemas que ela passava! No fim a minha mãe acabou dando a cesta básica que ganhava do hospital pra mãe da minha carrasca. Eu e Talita assistimos tudo, eu me sentindo mal por ela e ela sentindo vontade de bater mais em mim.
Depois disso a Talita nunca mais me bateu. Também nunca mais falou comigo, e hoje eu imagino os motivos por ela querer sacanear tanto as outras crianças.
Nunca mais vi a Talita mas graças a ela eu entendi, em um dia, tudo sobre minha mãe.